Escovação de Valores

        Ele já estava atrasado, ao menos virtualmente, para voltar ao trabalho. Havia terminado há pouco o costumeiro almoço com a turma do banco de toda sexta-feira. Iam sempre a um restaurante um pouco melhor que o de costume, um pouco mais caro, para marcar o fim da semana de trabalho e início do tempo livre. Ficavam um pouco mais soltos, mais à vontade neste dia da semana, conversavam mais, alguns até "aproveitavam" bebendo uns meros goles de chopp. Nada demais, mas socialmente lhes parecia estranho.

        O clima amigável os prendia no restaurante e acabavam forçando um pouquinho o horário do almoço. Mas hoje ele tinha firmado um compromisso mais cedo. Havia ido ao dentista pouco antes do almoço e levara alguns puxões de orelha. Um pouco de tártaro ali, placa acumulada ali e até alguns pontos onde parecia que dariam cáries. Foi o que o dentista falou. Sentia como se tivesse escapado por pouco daquele motorzinho. Por pouco.

        Caminhava pela calçada larga, o mormaço de março era o suficiente para o fazer querer chegar logo ao ar condicionado do banco. Sempre aquele alívio gostoso. Sua cabeça só conseguia pensar na escova e no banheiro. Precisava resolver isso. O gosto da comida começando a ficar ácido presente nas bochechas e o fazia salivar mais. O segundo alívio seria quando terminasse e a boca estivesse com aquela ardência gostosa da menta da pasta de dentes.

        Neste dia se sentiu como alguém dos filmes que vai desarmar uma bomba. Várias ferramentas e precisaria orquestrá-las com precisão e na ordem certa. Olhou para a bancada e viu seu arsenal. Pegou a caixinha barulhenta. Não gostava da caixa do fio dental. O plástico parecia frágil e mal encaixado, tudo parecia balançar lá dentro, o fio era difícil de capturar pela ponta e o corte, apesar de funcional, não era muito garantido nem preciso. Tirou um pedaço um pouco maior daquela vez.

        Depois do puxão de orelha estava prestando atenção em cada movimento para não deixar nada passar mais. Enrolou o fio nos dedos e respirou. Não podia machucar as gengivas como explicara-lhe o dentista, então foi devagar, fazendo longos movimentos como se estivesse serrando entre os dentes, com quase nenhuma força na direção das gengivas, até que o fio caiu no vazio. Pronto.

        Agora ele tinha mais consciência do que precisava ser feito. Antes achava que era só enfiar e tirar. Entendeu como era entre os dentes e que precisava esfregar o fio um pouco em um dente, um pouco no outro. Isso em cada um deles, toda vez que entrasse com o fio. Parecia uma eternidade, digno de tarefas de Aquiles, mas ia tentar ao menos. Não ficou pensando em nada, só se preocupou em executar aquilo ali.

        Foi bem mais tranquilo do que imaginou. Parecia que havia meditado (e tinha, de certa forma). Teve até mais consciência de como eram seus dentes. Nunca tinha se preocupado muito com eles. Só queria que não dessem problema, tinha medo de sentir dor. Onde sempre agarrava um pouco de carne ele insistiu um pouco mais. Estava 100% agora, até mais leve, pronto para o próximo passo.

        Jogou o fio sujo no lixo e veio a lembrança de sua mãe reclamando que o fio ia entupir o vaso. Enxaguou a boca e sentiu dessa vez a água gelada percorrer os cantinhos entre os dentes. Foi gostoso. Fechou aquela caixinha do fio com o clique característico. Pra fechar o barulho que fazia não era tão repugnante. E foi pro próximo. Escova nova que havia ganhado do dentista. Tem coisa melhor que usar uma escova pela primeira vez?, pensou. E agora ia ser a certa, super macia, não, extra macia, isso.

        A pasta também havia mudado. O dentista prescreveu pasta e escova como um médico que prescreve um remédio. Nunca tinha visto isso, mas gostou. Sentiu mais confiança do que aquelas prescrições genéricas que sempre recebia. Colocou a quantidade que tinha aprendido e começou a missão.

        Essa parte era mais divertida. Não sei porquê. Talvez o gosto. Distraiu um pouco e já tava escovando no automático, todo errado. Voltou. Agora precisava "varrer", sempre da gengiva pra fora. "Escutou" até a voz do dentista. Ia ser um pouco mais chato. Sempre que precisamos pensar para fazer algo que sempre fizemos no automático parece que nosso cérebro se recusa. Deve ter um ego próprio, vai saber.

        Foi devagar. Hoje ele estava mais decidido a limpar o dente de verdade não só passar a escova de um lado pro outro. O dentista tinha feito uma analogia interessante. Escovar os dentes era parecido com lavar um prato de louça fina, daqueles que, se quebrar ou arranhar não tem reposição igual. Tinha que lavar / escovar de leve, sem muito abrasivo, às vezes mais de uma vez, até que pudesse sentir que está limpo. E os dois, tanto o dente quanto o prato, estavam sujos da mesma coisa: comida.

        O movimento ainda tava travado. Não tinha muita prática em girar a escova como precisava, mas logo faria no piloto automático também. Terminara e já sentia o hálito diferente. Não sabia se era da pasta ou de tudo. Tinha feito uma faxina completa. Pra terminar ainda escovou de leve a língua pra tirar a comida dela também. Top! pensou. Alívio. Um peso tinha saído das suas costas. Ou da boca, sei lá.

        Aquelas ferramentas, ali na sua frente sobre a pia, tinham cumprido sua missão. Mereciam seu respeito. Tratou-as bem. Bateu a escova até ficar bem sequinha pra não mofar. Se desse aquela nata branca no fundo da escova teria que comprar outra. Colocou a capinha e guardou tudo dentro da bolsa. Ele adorava bolsas, caixas e coisas do tipo. Aquela ele tinha "roubado" da esposa que não ia valorizar uma daquela qualidade como deveria. Era perfeita para guardar seu arsenal. Estava pronto!

        Depois da missão cumprida, de toda a meditação do processo e do alívio do hálito fresco, o mundo parecia girar mais devagar. O piscar dos olhos foi mais devagar, a respiração mais forte, andou como se fosse mais alto, como se tivesse matado o dragão e estava preparado para os próximos. Sentou em sua cadeira e nem aquele barulho que ela fazia o irritou dessa vez. Essa sexta-feira ia ser diferente. Iria produzir como nunca, sentiu que era seu dia.

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